Sobre a Ponto a Ponto


O bordado livre como terapia e sobrevivência

Sissi Antunes vem encantando as bordadeiras de várias cidades do Brasil com seus pontos coloridos que formam flores, pássaros, árvores e dão vida às mais diversas peças. Durante toda sua vida, ela sempre realizou atividades manuais, mas foi no bordado que encontrou forças para vivenciar e superar o luto pela morte do filho, em 2013, aos 27 anos de idade. De lá para cá, ela vem se dedicando ao bordado livre de forma terapêutica, com muita alegria e prazer. Paulista de Guaratinguetá, vivendo em Santiago (Chile) há sete anos, Sissi defende que cada uma deve bordar aquilo que gosta, sem rigidez ou regras. Em suas aulas, conclama suas alunas a “exorcizar as mães, avós e freiras que exigiam o bordado perfeito”. “Vamos simplesmente ser feliz no bordado”, diz.


Como você iniciou seu caminho no mundo das linhas?

Eu sempre gostei de manualidades. Esta sempre foi uma atividade que me agradou muito, desde pequena. Fiz tricô, crochê, passei um tempo pela pintura, quando trabalhei com pintura country, decoupàge... Atividades manuais sempre estiveram presentes no meu cotidiano, porque nunca gostei de televisão. Nunca gostei de acompanhar novela, assistir filmes, séries, mas meu marido e meus filhos sempre gostaram disso. Então, uma forma de estar sentada em frente à televisão, enquanto eles assistiam a algum programa, era estar ocupada com as linhas. Nessa hora eu bordava, fazia tricô, patchwork, crochê... Foi a maneira que encontrei de estar junto da família nesses momentos, porque a linha é um material limpo para trabalhar, enquanto a pintura exige um aparato grande, um lugar para lixar, sujar... A linha você coloca dentro da bolsa, leva aonde for – uma viagem, uma consulta médica, um clube – e consegue conviver com as pessoas fazendo o que gosta, mesmo que esteja participando de algo que não lhe agrade muito. Ou seja, trabalhando com as linhas consigo desfrutar da companhia das pessoas de quem gosto, fazendo o que me dá prazer. Embora de maneira solitária, porque o bordado, o crochê e o tricô são atividades solitárias. Mesmo que você esteja rodeada de bordadeiras, cada uma está fazendo seu trabalho e nenhuma está fazendo o da outra. Nessa trajetória pelas manualidades, passei por tudo isso e me encontrei no bordado. Se faço um bordado pequeno e fica bonito, ok; se não gostei, passo para outra coisa. Se não ficou bom, é fácil desmanchar. E você pode optar por bordar muito ou apenas uma flor, trocar de peça logo, o que me agrada muito! Gosto de mudar a peça que estou bordando, seja blusa, calça, boné, sapato. Essa possibilidade de variar a base que estou bordando me encanta.

Por que a opção pelo bordado livre?

Escolhi o bordado livre por uma questão pessoal, por uma questão de vida. O bordado foi a minha sobrevivência. Em 2013 eu perdi meu filho Pedro, com 27 anos. Ele teve um tumor cerebral e foi muito duro, muito difícil... Minha vida dividiu-se em duas: uma antes e outra depois. Em momento algum eu quis que essa dor se tornasse uma depressão ou que me tirasse a vontade de viver – embora a verdade fosse essa, até porque clinicamente quase morri junto com ele. Naquela hora tive uma briga muito séria com Deus. Eu dizia textualmente que Ele havia pecado muito mais comigo do que eu com Ele, porque eu não tirei a vida de nenhum filho Dele e Ele tirou a vida do meu filho. Esse era o pensamento de uma mãe ferida e a realidade hoje não é essa. Acredito que por n motivos eu tive que passar por isso e escolhi essa dor. Também acredito que o Pedro escolheu o pouco tempo de vida que teria por aqui, não sei por quais motivos, mas aceito. Aquele momento era muito dolorido e eu não queria falar com ninguém. Queria simplesmente sentir aquela dor e permitir que ela fizesse parte da minha vida, digerir todo aquele sofrimento e seguir em frente. Eu tinha que continuar vivendo, tinha um neto, outros dois filhos, marido, tinha uma vida e precisava seguir. Não queria, em hipótese alguma, viver às custas de remédios e tampouco conversar com quem quer que fosse, porque tinha certeza que as pessoas queriam me consolar. E eu não queria ser consolada, não queria que as pessoas tivessem pena de mim, pois eu mesma já estava com muita pena de mim, com muita compaixão da minha dor e não queria que os outros sentissem isso, porque me sentia ainda mais vulnerável. Naquele momento, não quis receber visitas, fui até grosseira algumas vezes, reconheço, porque as pessoas me ligavam e eu não atendia, não queria conversar, não queria ver ninguém. Já morava em Santiago, apenas com meu marido e meu filho, e nem queria ter família por perto. Queria esmurrar a parede, dar pontapés nas coisas, chorar, gritar... às vezes minha vontade era passar o dia chorando e não queria que alguém me dissesse “não chora, porque ele vai sofrer do lado de lá”. Então, busquei a espiritualidade da forma que me servia e acredito que essa busca, de fazer o que meu sentimento mandava, foi muito importante para mim. Hoje eu não estou curada, porque nunca estarei, essa ferida vai estar sempre aqui, mas sei que superei relativamente bem. E isso devo ao bordado!

Por que você diz que deve essa superação ao bordado?

No bordado, da mesma forma que na vida cotidiana, eu não queira nada que me impusesse regras. Não queria, por exemplo, ter uma aula; queria bordar por mim mesma. A internet e o Youtube foram ótimos recursos, porque tinha dias que eu queria ficar em casa, de pijama. Comecei a buscar tutoriais – eu tinha algum conhecimento de bordado, da minha infância – e dali pra frente fui criando a minha própria forma de bordar. O bordado livre me deu o direito de construir minha própria história. Fui aprendendo os pontos, alguns eu gostava, outros não. Alguns pontos eu achava chato e não queria fazer, então pegava os pontos que gostava e queria transformar no que achava bonito. Por exemplo, o ponto matiz depende de um aprendizado técnico, clássico, e eu não iria para a escola aprender, até porque não tinha nem cabeça para isso. Então, comecei a bordar de forma que desse a aparência do matiz, muito grosseiramente, confesso, mas com pontos que gostava de bordar. Com isso comecei a transformar todos os pontos que conheci, e não eram muitos, em pontos que dessem aparência de outra técnica. Isso me ajudou muito. Quando saía para caminhar, em Santiago, havia inúmeras flores nas ruas e eu ficava encantada com toda aquela beleza. Eu queria transformar aquelas flores, e entregá-las ao Pedro. Era o que eu tinha para dar a ele! Foi aí que comecei a bordar flores, flores e mais flores, sempre com muita cor, porque as cores me ajudavam. À medida que começava a ficar triste, eu saía de uma cor pastel, outonal, e partia para cores mais vibrantes, porque, de alguma forma, eu ficava mais alegre. Essas foram as duas armas que usei para me sentir feliz, naquele momento: flores e cores. As pessoas começaram a gostar e também passei a me dar a liberdade de bordar o que queria, sem me importar se aquilo era certo, técnico, esteticamente bom ou não. E bordei muito! Às vezes, doze, oito horas por dia, cheguei a produzir quinze camisetas ao mês! Bordava o que vinha pela frente: minhas roupas usadas, o que podia e o que não podia, porque tampouco tinha dinheiro para comprar material. Quando me dava aquela tristeza, eu saía, comprava linha colorida, voltava pra casa e queria bordar. O bordado livre fez com que eu saísse da dor em que estava mergulhada. Costumo dizer o seguinte: quando você vê um quadro de Renoir, maravilhoso, você não vê uma flor delimitada, desenhada perfeitamente; o que se vê é uma mancha, que dá a ideia de um bosque florido. O mesmo acontece quando você vê uma pessoa usando uma roupa bordada. Você não vai lá pertinho ver que ponto foi usado, você vê a harmonia das formas, das cores, não importa se em linha reta, em forma de flor, geométrica. Isso é o que eu uso hoje para bordar. Sempre digo para minhas alunas: não bordem o que vocês não gostam! Se não gosta de ponto palestrina, ponto ostra, se sabe fazer apenas ponto correntinha, reto e haste, você já sabe tudo de bordado. Porque o bordado são três pontos consecutivos: correntinha, haste e atrás; todos os outros pontos são variações desses três, além do rococó e do nó francês, que são pontos individuais, não são pontos corridos.

Um recado para quem quer aprender a bordar.

Precisamos desmistificar o bordado. Nós, mulheres, que passamos por um colégio de freiras ou tivemos mães e avós bordadeiras, nunca vamos atingir a perfeição que nos era exigida, porque o bordado delas era tão criterioso, tão perfeito no direito e no avesso, que nos intimidava. Nas minhas aulas eu sempre digo: vamos exorcizar as freiras, as mães e as avós! Aqui ninguém vai olhar o avesso, se tem nó, se está bom ou se não está. Vamos simplesmente ser feliz no bordado! Desconstruir aquela ideia do ponto ter três milímetros de comprimento. Não precisa ter! Você pode fazer uma árvore inteira com um único ponto grande! Depende. O que vai ser visto é o resultado final desse trabalho. Óbvio que depois vamos conhecer os pontos clássicos porque eles nos ajudarão a construir esses desenhos, mas não vamos partir disso. As alunas fazem uma ou duas aulas e já conseguem bordar uma peça, por causa do que método que eu uso de criar o desenho – seja com ponto reto, correntinha, correntinha torcida, não importa – e cobrir esse desenho com linha. A partir daí, elas começam a criar e, conhecendo outros pontos, conseguem uma harmonia maior em desenhos mais complexos. Mas enquanto você não sabe o complexo, o básico e o simples proporcionam beleza e harmonia que não ficam devendo nada ao bordado clássico.

Kenia Chieppe, jornalista